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Mitos sobre como estudar: o que a pesquisa realmente diz

Muitas crenças populares sobre o estudo não resistem às pesquisas. Conheça os mitos mais comuns, o que os estudos mostram e o que fazer no lugar.

Por Equipe MemorizeCards · Publicado em · 6 min de leitura

Quem estuda para concurso recebe conselhos de todos os lados. Alguns têm boa base científica; outros são repetidos há tanto tempo que parecem verdade, mas não resistem a uma checagem. Acreditar em mitos pode custar caro: horas investidas em métodos que rendem pouco.

Este artigo reúne mitos comuns sobre o estudo e mostra o que a pesquisa diz sobre cada um, com a fonte para você conferir.

Mito 1: cada pessoa tem um estilo de aprendizagem

A ideia de que algumas pessoas aprendem melhor vendo, outras ouvindo e outras fazendo, e que o ensino deveria se adaptar a esse estilo, é muito popular. Pashler e colaboradores (2008) revisaram a literatura e procuraram o tipo de experimento capaz de testar essa hipótese: um em que pessoas com estilos diferentes aprendessem melhor com métodos diferentes. Concluíram que havia pouca evidência que sustentasse a aplicação dos estilos de aprendizagem na educação.

Isso não significa que todos aprendam igual ou que preferências não existam. Significa que adaptar o método ao suposto estilo não mostrou benefício consistente.

O que fazer no lugar: escolha o formato de acordo com o conteúdo. Mapas e esquemas funcionam bem para relações e hierarquias; perguntas e respostas, para fatos e conceitos. Veja mapas mentais para concurso.

Mito 2: usamos só uma pequena parte do cérebro

A frase aparece em filmes e propagandas, mas não tem respaldo na neurociência. Exames de imagem mostram atividade em praticamente todo o cérebro ao longo do dia, ainda que diferentes regiões se envolvam mais em tarefas diferentes. Lesões em quase qualquer região produzem algum efeito, o que não aconteceria se a maior parte estivesse ociosa.

O que fazer no lugar: em vez de procurar "potencial escondido", invista em técnicas com evidência, como a recuperação ativa e a repetição espaçada.

Mito 3: pessoas de "cérebro esquerdo" ou "cérebro direito"

Os hemisférios cerebrais têm algumas especializações, mas a ideia de que cada pessoa é dominada por um lado, mais lógico ou mais criativo, não encontrou apoio. Nielsen e colaboradores (2013) analisaram exames de conectividade de muitas pessoas e não encontraram evidência de indivíduos com um hemisfério globalmente mais forte que o outro.

O que fazer no lugar: não se rotule. Todos podem aprender matemática, redação ou direito com a prática adequada.

Mito 4: reler e grifar é a melhor forma de fixar

Reler e grifar são hábitos comuns e dão uma sensação de progresso. A revisão de Dunlosky e colaboradores (2013), que avaliou técnicas de aprendizagem, classificou releitura e grifo como de baixa utilidade quando comparadas a técnicas como a prática de testes e a prática distribuída.

O problema é a fluência: ao reler, o texto parece familiar, e confundimos familiaridade com domínio. Na prova, porém, é preciso lembrar sem o texto à frente.

O que fazer no lugar: feche o material e tente lembrar. Veja active recall com flashcards.

Mito 5: estudar tudo de uma vez perto da prova funciona melhor

Concentrar o estudo em uma maratona pode dar resultado no dia seguinte, mas o conteúdo tende a ser esquecido rápido. A meta-análise de Cepeda e colaboradores (2006) reuniu muitos experimentos e mostrou que distribuir o estudo no tempo melhora a retenção em comparação com concentrá-lo.

O que fazer no lugar: distribua as revisões. Veja repetição espaçada para concursos.

Mito 6: se pareceu fácil, eu aprendi

A sensação de facilidade durante o estudo nem sempre indica aprendizado duradouro. Bjork (1994) propôs o conceito de dificuldades desejáveis: condições que tornam o estudo mais trabalhoso no momento, como espaçar, intercalar e testar, mas que melhoram a retenção. Kornell e Bjork (2008) observaram que muitos participantes preferiam estudar em blocos, embora a intercalação tivesse produzido resultados melhores no teste.

O que fazer no lugar: aceite algum desconforto. Veja estudo intercalado.

Mito 7: dá para estudar bem fazendo várias coisas ao mesmo tempo

Alternar entre o estudo e o celular parece eficiente, mas cada troca de tarefa tem um custo de atenção. Ophir, Nass e Wagner (2009) compararam pessoas que relatavam usar muitas mídias ao mesmo tempo com pessoas que usavam poucas e encontraram desempenho pior das primeiras em tarefas de troca de atenção e de filtrar distrações.

O que fazer no lugar: blocos de foco com pausas planejadas. Veja técnica Pomodoro.

Mito 8: ouvir Mozart deixa você mais inteligente

O chamado efeito Mozart surgiu de um estudo de Rauscher, Shaw e Ky (1993), que relatou melhora temporária em uma tarefa espacial depois de ouvir uma sonata de Mozart. A ideia ganhou fama, mas análises posteriores, como a meta-análise de Pietschnig, Voracek e Formann (2010), concluíram que o efeito, quando aparece, é pequeno e não justifica a crença de que a música aumenta a inteligência.

O que fazer no lugar: se a música ajuda você a se concentrar, tudo bem, mas não espere que ela substitua o estudo ativo.

Mito 9: se eu entendo, consigo explicar

Rozenblit e Keil (2002) descreveram a ilusão de profundidade explicativa: as pessoas acreditam entender como as coisas funcionam bem mais do que realmente entendem, até tentarem explicar em detalhes.

O que fazer no lugar: explique com as próprias palavras, como na técnica Feynman.

Mito 10: memória boa é dom

Alguns têm mais facilidade, mas a técnica faz muita diferença. Estudos com atletas de memória, como o de Maguire e colaboradores (2003), mostraram que o desempenho excepcional estava ligado ao uso de estratégias, e não a cérebros estruturalmente diferentes. Veja curiosidades sobre a memória.

O que fazer no lugar: treine técnicas como o palácio da memória e os mnemônicos.

Mito 11: quanto mais horas, melhor

Contar horas de estudo é tentador, porque é fácil de medir. Mas horas sentado diante do material não equivalem a aprendizado. Uma hora de leitura passiva com o celular por perto pode render menos do que um bloco curto de recuperação ativa com atenção total. Além disso, estudar até a exaustão costuma prejudicar o sono, e o sono participa da consolidação da memória, como mostra a revisão de Rasch e Born (2013).

O que fazer no lugar: meça o que importa, como questões resolvidas, cartões revisados e taxa de acerto, e proteja as horas de sono. Veja sono e consolidação da memória.

Mito 12: é preciso entender tudo antes de testar a memória

Muita gente adia as questões e os flashcards até sentir que domina o assunto. A pesquisa sugere o contrário: testar cedo faz parte do aprendizado. Nos experimentos de Karpicke e Roediger (2008), repetir a recuperação teve grande efeito na retenção posterior, enquanto repetir o estudo sem recuperação acrescentou pouco. Errar durante a prática também mostra onde estão as lacunas.

O que fazer no lugar: teste-se desde o início, mesmo com dúvidas, e use os erros para orientar o estudo. Veja questões de provas anteriores.

Por que os mitos persistem

Mitos sobrevivem porque são simples, intuitivos e muitas vezes trazem uma ponta de verdade. Também se espalham por repetição: quanto mais ouvimos uma afirmação, mais familiar e confiável ela parece. Além disso, métodos pouco eficientes, como a releitura, dão uma sensação imediata de progresso, o que reforça o hábito.

Como checar um conselho de estudo

Antes de adotar um método, pergunte: existe um estudo que o testou? Ele comparou o método com uma alternativa? O resultado foi replicado? Revisões amplas, como a de Dunlosky e colaboradores (2013), são um bom ponto de partida, porque reúnem e avaliam muitos experimentos ao mesmo tempo.

Conclusão

Muitas crenças sobre o estudo não resistem às evidências. O que a pesquisa sustenta é menos glamoroso: lembrar ativamente, espaçar as revisões, intercalar assuntos e aceitar algum esforço. Para colocar essas práticas na rotina, conheça os planos do MemorizeCards e explore o catálogo de baralhos.

Perguntas frequentes

Estilos de aprendizagem existem?

As pessoas têm preferências, mas a revisão de Pashler e colaboradores (2008) encontrou pouca evidência de que adaptar o ensino ao estilo melhore o aprendizado.

Reler o material é perda de tempo?

Não é inútil, mas tende a render menos do que testar a memória. A revisão de Dunlosky e colaboradores (2013) classificou a releitura como de baixa utilidade.

Ouvir música clássica melhora o estudo?

O efeito Mozart, quando aparece, é pequeno e temporário segundo análises posteriores. A música pode ajudar no humor, mas não substitui o estudo ativo.

Fontes e referências

  • Pashler, H. et al. (2008). Learning styles: concepts and evidence. Psychological Science in the Public Interest, 9(3), 105–119.
  • Nielsen, J. A. et al. (2013). An evaluation of the left-brain vs. right-brain hypothesis with resting state functional connectivity MRI. PLoS ONE, 8(8), e71275.
  • Dunlosky, J. et al. (2013). Improving students’ learning with effective learning techniques. Psychological Science in the Public Interest, 14(1), 4–58.
  • Cepeda, N. J. et al. (2006). Distributed practice in verbal recall tasks. Psychological Bulletin, 132(3), 354–380.
  • Bjork, R. A. (1994). Memory and metamemory considerations in the training of human beings. In: Metcalfe & Shimamura (orgs.), Metacognition. MIT Press.
  • Kornell, N., & Bjork, R. A. (2008). Learning concepts and categories. Psychological Science, 19(6), 585–592.
  • Ophir, E., Nass, C., & Wagner, A. D. (2009). Cognitive control in media multitaskers. PNAS, 106(37), 15583–15587.
  • Rauscher, F. H., Shaw, G. L., & Ky, K. N. (1993). Music and spatial task performance. Nature, 365, 611.
  • Pietschnig, J., Voracek, M., & Formann, A. K. (2010). Mozart effect–Shmozart effect: a meta-analysis. Intelligence, 38(3), 314–323.
  • Rozenblit, L., & Keil, F. (2002). The misunderstood limits of folk science. Cognitive Science, 26(5), 521–562.
  • Rasch, B., & Born, J. (2013). About sleep’s role in memory. Physiological Reviews, 93(2), 681–766.
  • Karpicke, J. D., & Roediger, H. L. (2008). The critical importance of retrieval for learning. Science, 319(5865), 966–968.
  • Maguire, E. A. et al. (2003). Routes to remembering: the brains behind superior memory. Nature Neuroscience, 6(1), 90–95.

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